Testemunho de um visitante ao Centro de Convergência

O texto seguinte foi escrito por alguém que nos visitou entre os meses de Maio e Setembro de 2013. Essa pessoa pediu que o seu texto fosse publicado na página principal do blog, pelo que aqui segue. Para qualquer comentário, informação adicional ou contraditório, estão como sempre disponíveis as caixas de comentários.

Introdução:

 Escrevo este texto em resposta ao convite feito no blogue do “Centro de Convergência da Aldeia das Amoreiras” (CC) para que se expressem opiniões genéricas sobre a sua actividade. O objectivo destas contribuições suponho que seja animar a reflexão e mobilizar pessoas ideologicamente próximas mas eventualmente dispersas. Paralelamente decorre ou já decorreu uma “sistematização da actividade do CC entre 2005 e 2013”, creio que feita internamente e ainda algo semelhante a uma auditoria externa feita no quadro de um projecto universitário de investigação. As fronteiras entre estas 3 iniciativas e os seus objectos específicos não são muito claras e não têm sido divulgados resultados, o que talvez explique que não tenham sido ainda manifestadas opiniões na página criada para o efeito em Julho de 2013.

 

Estive na Aldeia das Amoreiras (AdA) de Maio a Setembro de 2013 e há bastante tempo que tenho a intenção de expôr a minha opinião pessoal. Recolhi impressões no local durante aquele tempo e também trazia já experiências semelhantes que posso considerar em conjunto com esta, relativas a iniciativas com que tive contacto e a outras que eu próprio tentei lançar. Outras iniciativas tem havido noutros locais que se deparam com obstáculos ou foram mal sucedidas e de que tem havido pouca [informação].

Julgo que pessoas que procuram reagir ou adaptar-se de alguma forma à marcha da degradação civilizacional e ambiental que decorre desde o fim dos anos dourados do pós-guerra (50s e 60s), a que escolho chamar crise neo-Liberal (CNL), em muitos casos solitárias mas também em grupos, têm interesse em registar discussões como esta, o que poderá ser útil com vista a que se obtenham melhores resultados em iniciativas futuras. A CNL, que teve efeitos óbvios no domínio ambiental e económico-financeiro mas abrangeu também a Educação, a Cultura, o entretenimento e o modo de vida em geral, é muitas vezes descrita de modo parcelar, tomando isoladamente aspectos como o consumismo ou a degradação dos conteúdos dos media. Tem-se instalado rapidamente desde o inicio dos anos 70 e reforçou-se com o aparecimento da internet em 1982 e a Globalização, produzindo já diferenciações demográficas e geracionaias e estando na origem de difíceis problemas psico-sociais e de assertividade entre grupos etários.

Afirmo desde já que tenho grandes resistências a teorias de conspirações, abordagens místicas ou que não sejam solidamente fundamentadas. Tenho tido a preocupação de conhecer o mais possível dos aspectos de Ciência Politica, Históricos e de Economia & Finanças envolvidos (tanto quanto posso, pois que não fazem parte da minha área de formação fundamental), bem como manter-me informado das evoluções nos países mais importantes, pois estou certo de que esta CNL só pode ter soluções positivas que envolvam um número elevado de países simultâneamente – noto que, recentemente, outras pessoas, conhecidas mas que não falavam disto, começam a exprimir abordagens semelhantes, coisa que noutros países já acontece há bastante tempo. Nesta fase, em Portugal, ainda só são possíveis iniciativas de pequena escala, onde se deve sobretudo difundir informação o mais isenta e o mais completa possível. Até agora os assuntos que me têm preocupado são deliberadamente evitados pela quase totalidade dos jovens e menos jovens que tenho encontrado, o que causa uma grande parte da dificuldade de comunicação que tenho sentido com eles, por um lado, e os impede de ter uma ideia mais abrangente e realista dos problemas que enfrentamos, resultando em esforços ineficazes e numa grande susceptibilidade a diversas alienações. O afastamento que se tem verificado das pessoas em relação à informação e às questões públicas é sobretudo causado pela permanente frustração a que se sujeitam no modo de vida mainstream.

Gostaria também de transmitir a expectativa prévia que eu tinha relativamente ao CC; já conhecia a sua existência desde 2007, pelo contacto que tive com o GAIA durante a encontro Ecotopia 2007 em Aljezur, e por visitas esporádicas que depois disso fui fazendo aos sites e blogues destes organismos. Tanto uma como outra destas fontes de informação criavam uma imagem muito boa e, até certo ponto, de intensa actividade. Parecia realmente um projecto exemplar e enraizado. O facto de só em 2013 me ter deslocado lá tem a ver com o meu desconforto com o facto de as áreas política e económica não estarem a ser consideradas; ex.: a crise de 2008 e subsequente, por exemplo, não teve qualquer consequência no conteúdo do blogue do CC! Mantive sentimentos mistos durante vários anos, receando que este CC se tornasse em mais um motivo de frustração como aqueles a que eu já me tinha visto sujeitado e fui-o guardando para quando não me sobrasse energia para continuar os esforços que vinha fazendo desde 1996. Um bote de salvação que, ao mesmo tempo, eu temia estivesse arrombado. Não sou o que se diz velho nestes dias, mas tenho tido uma vida desgastante, a que se juntam os últimos 23 anos de solidão, e tenho vindo progressivamente a sentir a minha saúde piorar.

O parágrafo anterior é pessoal e intimo, mas incluo-o porque penso que os pormenores deste tipo podem ser necessários para se obter uma boa assertividade e clareza na comunicação por escrito. Eventualmente não conseguirei evitar que as pessoas envolvidas sejam identificáveis para quem está ou esteve mais próximo dos acontecimentos; tentarei evitar fazê-lo gratuitamente mas é-me impossível transportar muitos dos pormenores importantes para um plano teórico impessoal ou ficcionado e, sobretudo, sou da opinião firme de que é exigível às pessoas que afirmam estar empenhadas em reagir ao sistema educativo, económico e social mainstream actual, que prescindam progressivamente de muitos dos sentimentos de orgulho, privacidade e tentação de poder sobre os outros que cultivam culturalmente, ou ficaremos imóveis no terreno do ludíbrio e das aparências falsas; qualquer transformação real seria sempre longínqua e apenas vagamente sonhada.

Passo em seguida a alguns relatos de experiências que vivi e observei na AdA, a propósito das quais exporei a minha opinião e farei a minha crítica.

A “Casa Verde” e alguns dos rituais:

A “casa verde” é uma casa tradicional alentejana recentemente reparada e na qual foram feitas algumas instalações de tipo ‘alternativo’ ou com preocupação ambiental. Serve de pensão para estadias curtas de visitantes; não é permitido fumar (advertência que não costuma ser feita previamente) e os hóspedes não podem usar a cozinha. Como abrigo para dormir e para não fumadores é confortável se estiver pouco frio, mas cara.

As aplicações tecnológicas ‘alternativas’ são as habituais e, como se vai ver, têm apenas valor de rituais identitários do grupo, sem qualquer expressão funcional.

“Casa de banho seca”: é o sanitário antigo da casa. Tem dimensões normais e um janelo, notando-se apenas a falta da sanita, que foi substituída por um balde de uns 20 ou 30 litros numa caixa de madeira. Como não se faz a separação da urina é norma usar-se o antigo bidé para urinar (!), se se quiserem evitar maus cheiros. Isto não deve ser cómodo para as mulheres e aos homens coloca o problema adicional dos salpicos, para não falar nos mais velhos, já com as próstatas dilatadas! No entanto o resultado é considerado exemplo de aplicação de técnicas amigas do ambiente e não há qualquer intenção de fazer a separação das urinas, o que seria bastante fácil.

Esta instalação, foi feita como demonstração e suponho que era esperado fosse adoptada pelos moradores da aldeia, de modo a reduzir as emissões para a fossa colectiva e daí para a ribeira. Escusado será dizer que os resultados foram nulos; apenas acontece avistarem-se, de vez em quando, os hóspedes masculinos aliviarem-se do modo mais tradicional, anterior ao uso de WC, nalguns recantos em redor da “casa verde”.

O duche aquecido por fermentação: a aplicação da recuperação do calor resultante da fermentação de uma pilha vegetal parece ter superado as expectativas, tendo a mesma pilha funcionado do Outono de 2012 até Março de 2013. Nada a dizer da técnica, apenas que também não foi adoptada e desta vez nem sequer pelos próprios “convergentes#”. A população local, na generalidade dos casos, não teria aderido, parece-me, por não dispôr de espaço suficiente para instalar a pilha (desde a Revolução Liberal de 1820, que resultou na distribuição dos baldios pelos moradores, inviáveis e posteriormente agregados aos latifúndios privados por venda, a Arquitectura Urbana no Alentejo passou a caracterizar-se por espaços ao ar livre maioritariamente exíguos). A população “convergente#”, salvo alguns casos muito raros, preferiu usar a banheira da casa de banho interior, o esquentador e, claro, gás de botija, mesmo quando a temperatura do ar subiu, a partir de Maio! Em Agosto tínhamos temperaturas diárias máximas de 40º C. Comodismo, pudor no ar livre, apesar de o duche ser invisível de fora do muro do quintal e da casa? O facto é que estes “convergentes#” desprezam a contribuição que podem dar alterando os seus hábitos pessoais e mostram o baixo grau em que se sentem pessoalmente envolvidos na catástrofe ambiental.

O “fogão de sala”: Tratava-se da antiga lareira alentejana tradicional da casa. Elemento arquitectónico característico da região e adaptado, por séculos de experimentação, ao clima e às actividades domésticas. Em lugar de tentar adaptar os seus hábitos urbanos, o que derivaria da declaração de intenções divulgada no inicio do projecto, os “convergentes#” tentaram copiar e recriar localmente os meios que lhes permitissem manter o conforto citadino de que se mantêm dependentes. Obviamente este exemplo também não foi adoptado na aldeia. Na própria “casa verde” suponho que a lareira continua a ser utilizável mas com menos eficiência porque o fogo tem de ser feito mais afastado da parede do fundo da lareira e haverá menor tiragem, com libertação de fumos.

O “aquecimento central”: Baseia-se no conceito dos rocket stoves. Esta designação inglesa mostra como a cultura alternativa portuguesa é sistematicamente importada de países de língua anglo- saxónica, usando a internet, e se ignoram as técnicas tradicionais locais baseadas nos mesmos princípios da Física. Os alternativos portugueses dispensam-se de ler Leite de Vasconcelos, Aquilino, Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca e tantíssimos outros, nem fazem observação directa em etnografia; não estão dispostos a adaptar-se nem temporariamente ao ‘desconforto’ rural que neste Pais ainda se vive. Naqueles Autores encontrariam relatos do quotidiano, desenhos de objectos e construções e vocabulário que dispensaria esses anglicanismos e nos faria sentir mais a nossa identidade e a ligação com o território. Além disso, a existência de páginas portuguesas na web sobre estes assuntos permitiria a divulgação mais atraente e eficaz. Tornarei a falar disto a propósito da “permacultura” (*).

Voltando à vaca fria: o modelo de aquecimento central escolhido baseia-se numa variante de rocket stove em que a alimentação de lenha se faz verticalmente. Eu já tinha ouvido falar de tentativas de a concretizar mas sempre sem entusiasmo. Para que funcione sem libertação de fumos é necessário que se estabeleça uma sucção em direcção à chaminé, superior à tendência ascencional dos fumos na câmara de combustão; pois, naquela instalação as resistências ao fluxo até à chaminé são imensas e será impossível evitar a libertação de fumos no interior de casa sem um exaustor mecânico, o que desvirtuará completamente o conjunto. A solução é usar ceroulas e camisolas artesanais de lã (evitar a fibra acrílica) e só usar os quartos para dormir; durante o dia usar a cozinha e a sala com lareira. Para o resto, se for preciso, salamandras ou braseiras. Muitos pobres havia que só podiam usar uma braseira, que se acendia na rua!

E, claro, habituarem-se a suportar o frio, uma necessidade vulgar no mundo rural. Note-se que não defendo a recusa de utilizar meios modernos para aquecimento ou outros fins, como alguns ambientalistas radicais fazem. Deve fazer-se-lo, mas de modo muito ponderado. O que aqui critico é que a ideia corajosa e ambiciosa de promover uma comunidade ambientalmente mais sensata, inclusiva dos próprios habitantes numa aldeia rural já estabelecida, aplicando soluções novas e alternativas ao pronto-a-usar disponível no mercado, que era algo que se depreendia da declaração inicial de intenções anunciada no blogue por altura da primeira acção de charme em 2005, falhou redondamente. As razões que sempre estiveram presentes e se mantêm são a falta de experiência dos “convergentes#” na vida de comunidades rurais pobres, que está ligada a uma falta de empenho pessoal patente pois no tempo que antecedeu 2005 poderiam ter experimentado essa vida em aldeias portuguesas ou de outros países e também a arrogância ou falta de humildade e integridade intelectual para reconhecer e aprender, após os primeiros fracassos, com os próprios habitantes, com pessoas mais experientes e mais velhas ou até literariamente. Houve (e há) um erro de atitude por parte dos “convergentes#”, que vieram “mostrar como se faz” ex-catedra a gente que o sabe desde o Antigo Regime, tendo eles intenções porventura muito honestas mas infantilmente afastadas da realidade. Repetiu-se o erro das “campanhas de alfabetização” de 74 e 75 e, como diz o adágio: quem sabe faz; quem não sabe ensina!

No inicio do projecto deu-se grande importância a acções publicitárias multimédia, como é de norma hoje em dia, divulgadas na internet e até em livro, que deram inicio ao embuste; essa técnica continua a usar-se cuidadosamente para manter a visibilidade, o brilho e o protagonismo, tentando não perder os apoios da Câmara Municipal de Odemira e da Comissão Europeia.

Tinha receio de que este texto iria ser muito longo para realizar o que me propunha mas verifico que o que ficou escrito já retrata o essencial da minha opinião sobre o que tem sido o CC e já se pode depreender genericamente o que foi o seu papel de 2005 a 2013.

Não posso todavia esquecer um ponto. A iniciativa dos “convergentes#” não é consequência de um esforço voluntário lúcido, capaz de vencer as resistências pessoais: a generalidade dispõe de uma retaguarda nalguma cidade que lhes garante a compensação afectiva e económica suficientemente confortável para que possam evitar desligar-se do sistema mainstream e ainda de transporte próprio. Durante as estadias semanais na AdA têm comportamentos sociais que suscitam dos habitantes o comentário de que “o que elas querem é baganha” (cf. léxico tradicional e popular alentejano).

Pela minha parte, e arriscando parecer estar a “self-pittying myself”, trouxe da AdA no fim de Setembro uma fibrilhação auricular e hipertensão que fui obrigado a vir tratar em Santiago do Cacém. Estou certo de que a fibrilhação se desencadeou primordialmente por ouvir a declaração de que me tinha ido “meter onde não era chamado”. Depois de 23 anos dedicado seriamente a esta área de activismo, quase mais do que alguns destes brilhantes jovens têm de vida, ouvir isto de um suposto activista ideologicamente próximo, teve efeitos demolidores na minha saúde. Já tinha ouvido relatos de outras pessoas especialmente empenhadas e jovens que foram obrigadas a afastar-se da AdA psicologicamente destroçadas, mas é sempre muito difícil saber pormenores destes casos; simplesmente não se fala deles. Também os voluntários do Serviço de Voluntariado Europeu (SVE) se afastam, por muito pacientes que sejam. Mas na Primavera, se a saúde mo permitir, regressarei à zona.

A propósito cito uma passagem do blogue que data provavelmente de Julho de 2012, precisamente da página “opiniões”. Cito: ”Desde a sua fundação que o Centro de Convergência está aberto a todas as pessoas que desejem convergir para pôr as suas ideias em prática. Daqui o nome Centro de Convergência. Se tens boas ideias vem daí pô-las em prática! Nós naturalmente que temos imensas mas não as conseguimos pôr todas em prática por isso antes de sugerir para nós fazermos pergunta-te se o queres tu fazer… Nós partilhamos os nossos recursos sempre que possível.” A atitude do camarada que fez aquela afirmação não foi isolada na medida em que, tentando discutir o caso com outros elementos, foi considerado que o CC e o seu papel não estavam em causa. O método de organização horizontal destina-se, na sua origem, a evitar a represssão policial em acções até muito recentes, como Occupy Wall Street (OWS) ou o 15M, mas foi confundido com uma variante de filosofia democrática; de qualquer modo só tem resultados se os activistas tiverem formação e capacidade autónoma para realizar as tarefas decididas por consenso, o que, decididamente está longe de acontecer com os convergentes#. De novo se revela também a falta de consciência do principal papel do grupo: ter uma atitude pedagógica para com os elementos atraídos pelo projecto mas ainda muito afastados de ter uma consciência adequada dos objectivos e dos métodos.

Falta-me ainda esclarecer a expressão “convergentes#”; as decisões do CC em principio são tomadas por consenso numa reunião semanal onde tem assento quem queira. A determinada altura a elite, estabelecida não se sabe como, necessitou de uma designação especial para aqueles que, como é sabido desde a histórica revolta dos porcos, são mais iguais que os outros. Optaram por “convergentes”. Ora, como convergentes há muitos e eu também sou um deles, necessito de usar uma variante para exprimir esta nuance semântica e lembrei-me dos nomes das versões sucessivas da linguagem de programação C, que foram C, C+, C++ e C# (C sharp ou C sustenido).

(*) Noutro texto a publicar mais tarde.

Henrique Merino, calcinhas01@gmail.com

Brescos, 2-12-2013

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11 comentários

Filed under Artigos de opinião

11 responses to “Testemunho de um visitante ao Centro de Convergência

  1. Henrique Merino

    Viva Gustavo!

    Estás de novo em HB? O que se vai dizendo aí de nós, Portugas?

    É, só o Marcos se tem dado ao trabalho de me responder. O André Vizinho, principal mentor do projecto, não diz nada. Ele tem formação académica, é Engenheiro do Ambiente, e eu esperava que algures no decurso da sua formação, alguém o tivesse ensinado a ter em atenção as críticas, pois estas costumavam ser a principal forma de integrar na discussão pontos de vista diferentes, que talvez não tivessem surgido ao Autor da tese quando a investigou, permitindo-lhe aprofundá-la e robustecê-la. Era este o objectivo das revistas e dos encontros científicos nos séc. IXX e XX, ao veicular uma discussão generalizada entre todos os investigadores interessados nos assuntos e que a todo o momento legitimava inter pares o conhecimento.

    O silêncio e o desprezo, ao mesmo tempo que se mantém a campanha de marketing repetitiva e sem conteúdo racional, são o modo como no Universo mainstream se lida com as oposições, se estabelece o domínio e espalha a alienação mental. Esta estratégia tem ainda outro objectivo que é o de transformar casos como o do CC da AdA em atractores locais e estéreis para muitas pessoas insatisfeitas; assim perde-se gente um pouco mais radical, capaz de evoluir para uma crítica mais profunda e a reflexão sobre o modo de reagir efectivamente.

    Pessoalmente tenho muitos anos de estudo e acompanhamento destas coisas, ao nível das minhas capacidades limitadas e parcelares, é claro, com recurso a fontes em diversas línguas (5, talvez 6)); teria bastante com que contribuir (suponho humildemente), mas ninguém se mostrou curioso ou tentou discutir. Cheguei à conclusão de que esta amostra de pessoas que se afastam do sistema rejeitam também a política e, até o exercício da razão! Entram num Universo cognitivo a que se chama “magic thinking” na literatura estado-unidense há já alguns anos, e cujo mecanismo psicológico resulta da adaptação ao fosso abismal entre o que a tecnologia nos proprociona e permite usar quotidianamente e o âmbito das coisas compreensíveis de acordo com o nível de educação ou informação do sujeito. Não encontro o link de um artigo de cujo conteúdo me lembrei a propósito disto e que expõe de modo mais formalmente correcto do que se trata. É um mecanismo relacionado com o da fé.

    Desconfio também que actualmente o valor curricular da investigação se mede pelo dinheiro que traga às instituições e pela sua penetração nas redes sociais. Por ex., mais alunos numa Universidade ou num curso. Ainda não me tinha atrevido a dizê-lo ou ecrevê-lo, mas a duração e divulgação deste caso confirmam-no.

    Até aqui tentei desenvolver de outro ângulo e com mais penetração a “crítica ao sistema CC”, e o resultado parece-me ter sido, mais uma vez, aquilo que dizes no teu 2º parágrafo: “… em moda criticar o “sistema” em toda parte,mas os metodos sempre como reproducao do objeto criticado.” Se mo permites, em pt-pt ficaria mais fácil de entender assim: … em moda criticar o “sistema” em toda parte, mas a critica reproduz sempre os métodos do objeto criticado.

    É verdade no estadio embrionário da contestação, quando estão tantas manifestações de uma cultura em causa. Mas isto talvez já esteja a mexer no modo de enunciar o problema. Presentemente os intelectuais políticos PT começam a reconhecer que estamos “numa crise global e precisamos de uma resposta global”, (acabo de ouvir na TV, dito por Viriato Soromenho Marques). Até aqui todos na UE olhavam para as biqueiras dos seus próprios sapatos; espero que estejam a começar a olhar para mais longe!
    Abraço, Henrique

  2. Henrique K. W. Merino

    VIVA GUSTAVO!!

    Abri hoje o blogue dos convergentes por desfastio. Já há uns meses que não o consultava, apesar de o conservar bookmarked. Sabes, perdi a paciência para falar sózinho. (Não considero que o Marcos esteja numa atitude de oponente. Acho que é alguém imerso neste ambiente e com as companhias que lhe estão disponíveis; é sério e empenhado e considero-o como amigo. Já em 2007 tinha ficado impressionado com a sua serenidade e atitude de procura de consensos).

    Outra coisa que precisas de saber é que o meu comentário sofreu, logo de início, uma acção de censura frustrada; dos vários cut&paste que sofreu ficou alterada a sequência cronológica dos contributos do Marco e meus, a tal ponto que eu só encontrei e li a 1ª resposta do Marco mais de um mês depois, quando já tinha colocado outros posts que, é claro, não seguiam ordem natural de um diálogo. Disto resultou que estas opiniões ficaram ilegíveis. É justo que se saiba que a baralhada foi feita pelo André Vizinho.

    Creio que estás a ser um bocado injusto com o Marco quando referes a obsessão pela crítica do sistema. Ele procura genuinamente soluções praticáveis ao mesmo tempo que gere pacíficamente as “divergências” (entre “ “ porque nem sequer há conteúdo concreto a debater, pelo menos de um dos lados: apenas conversa mole e propaganda).

    Eu afinal estou gravemente doente (insuficiência cardíaca) e tenho de encerrar o meu activismo directo. Tenho que mudar de estratégia e de clima; além disso sairei provávelmente de PT porque é insuportável viver num país onde se faz das pessoas parvas todos os dias!

    Penso que esquecer este blog e este “projecto”, conservando os poucos amigos que fiz em 2013, é o mais saudável para mim.

    Cumprimentos à Dória e um abraço irmão, à brasileira, para ti,
    Henrique.

  3. marcospais78

    Olá Henrique

    Não me faz sentido continuar a responder ao teu texto inicial
    tendo em conta os comentários adicionais que já surgiram.
    Por outro lado, não me parece possível conseguir entabular
    diálogo em todas as frentes de batalha que levantas. A complexidade
    é enorme (para mim) e esta troca de correspondência tornar-se-ia num
    lençol de texto impossível de ler, se é que não está já nesse estado.

    Vou procurar responder sucintamente a algumas das várias questões
    que levantas no teu comentário de 12/12/2013, às 00:31.
    Em seguida faço uma proposta que procura organizar todo este diálogo
    numa forma que seja perceptivel e digerivel. Porque afinal dou
    bastante importância a este processo de reflexão.

    Começando sobre a importância de ter uma imagem geral antes de partir
    para os detalhes, que referes logo no primeiro parágrafo: Essa tem sido
    uma luta desde o início do GAIA. Nunca chegou a ser concretizada porque
    havia sempre alguém que se opunha por considerar que as suas liberdades
    individuais eram postas em causa. O máximo que se conseguiu foi criar
    um conjunto de princípios para o GAIA-Lisboa, não a nível nacional.
    Estes princípios denotam uma determinado mundivisão e podes lê-los na
    página do GAIA em http://gaia.org.pt/node/15392
    Fui eu que os redigi e gostava de saber qual a tua opinião sobre os
    mesmos. Entretanto comecei um trabalho de fundamentação que pretendia
    que fosse acessível clicando em cada princípio, mas nunca cheguei a terminar.

    Sobre os apelos à modernidade e o sentimento geral de depressão das
    populações do interior de Portugal gerado por esse apelo, creio
    que se combate com a valorização do modo de vida associado a esse mesmo
    interior, em que as actividades principais estão ligadas à terra e aos
    animais. Acontece que nós podemos ter um financiamento de 5 ou 10 mil
    euros para fazer, por exemplo, durante um ano uma actividade semanal que
    valorize esse modo de vida, ao passo que a indústria publicitária tem um
    orçamento de milhões de euros e um amplo tempo de antena, pulverizando as
    mentes de toda a gente com 200 ou 300 apelos por dia a um modo de
    vida baseado no consumo de produtos normalizados a uma vida urbana
    igual em toda a parte (mesmo para quem vive no campo).

    Para terminar, comento o parágrafo em que dizes sermos representantes daqueles
    e daquelas que ludibriaram, (e que continuam a ludibriar, acrescento eu) estas
    populações.
    Num registo mais pessoal, estes quatro anos que tenho vivido aqui no interior
    do concelho de Odemira fazem-me pensar que eu também sou um exilado cultural.
    Com isto quero dizer que só agora percebo que a migração dos meus avós para a
    cidade resultou em estar eu fora, agora e em parte, da cultura deles. Ao
    viver na cidade adopto naturalmente um modo de vida que é semelhante em
    muitos lugares. Viver em Lisboa é igual a Madrid, Paris ou Londres,
    naturalmente com as suas vicissitudes. Ora dado que apenas agora me
    apercebo disso, anteriormente agia sem essa consciência, pelo que a minha
    actuação vinha revestida de um argumento de autoridade do qual não fazia
    a mínima ideia, ou seja, o meu pensamento e actuação não eram alicerçados
    na minha terra e cultura mas sim numa cultura mundial hegemónica, normalizada
    à la estadunidense.
    Agora que vou tomando consciência desta situação, naquilo que é um processo
    gradual, procuro repensar a minha actuação, embora sinta muita falta de
    ferramentas para continuar num processo que apenas enceto.
    Ou seja, tentando explicar de outra maneira: o interior de Portugal é uma
    região em desintegração. Os serviços públicos vão se tornando mais raros,
    os empregos diminuem ou perdem atractividade por via dos apelos da
    publicidade, as populações emigram. Tudo isto devido a um movimento geral
    em busca do sonho americano ou do “american way of life”, que começou
    há décadas. Depois há uma malta, criada na cidade e que acha que percebe as
    coisas melhor que as outras pessoas, que vai para o campo mandar bitaites.
    Só que esses bitaites são tão alóctones e impositivos
    como o sonho americano, com a grande desvantagem de serem menos sedutores.
    E como ninguém se apercebe muito bem da cultura em que vive, da mesma
    forma que ninguém dá grande valor ao ar que respira, tomado por garantido,
    aqui nas aldeias também ninguém, ou quase, consegue identificar o problema
    e comunicá-lo com quem chega cheio de boas intenções, mas que no fundo mais
    não faz do que parte de uma vanguarda, também ela de dominação cultural,
    chamada permacultura ou transição.
    Neste momento um dos desafios que me parecem mais difíceis é como conseguir
    resistir a este movimento de normalização/empobrecimento cultural dentro
    do marco da nossa própria cultura. Por exemplo, se da nossa cultura se
    pode dizer que é (isto é naturalmente discutível) mais contemplativa e
    focada no processo, pouco dada a grandes organizações colectivas, em
    contraponto a uma cultura hegemónica mais activa e focada
    no resultado, propícia a uma maior organização, como podemos nós, sem
    nos organizarmos (porque organizar-nos seria perder uma característica
    da nossa cultura) rebater a hegemonia cultural?

    Bom, termino por aqui certo de já ter dito uma série de coisas questionáveis.

    Sobre a proposta de organização (lá está) de todo este diálogo, fica para a
    próxima ocasião.

    Um abraço!

    Marcos

    • Henrique Merino

      Viva Marcos!

      Agrade;o muit]issimo o teu coment]ario. }E reflectido, empenhado, intelectualmente honesto. Foi muito importante para mim poder l|e/lo, porque me sentia j]a h]a um longo tempo s]o e a pregar no deserto. Com toda a franqueza, considerando a depress\ao e diagn]osticos que me foram aplicados, j]a receava sofrer de Mania major e de estar descolado irremedi]avelmente de realidade.

      Alguns amigos e camaradas de h]a muito tempo *do PREC e do Movimento de Esquerda Socialista( manifestaram concord\ancia mas não despoletei nunca uma reflex\ao s]eria, como agora. ]E malta que continua na popula;\ao activa e urbana e que sofre verdadeiros dramas ]intimos se insisto em falar destes pensamentos com eles.

      Obrigado duas vezes, porque produziste/me um al]ivio enorme e encorajamento, equivalente }a import|ancia que teve para mim a participa;\ao no Ecotopia 2007 em que tamb]em deste a tua contribui;\ao.

      Isto ]e uma resposta curta, como carta aberta, ecrita com o teclado configurado para ingl|es. Prometo/te aplicar/me como mo permitir a sa]ude e seja onde estiver para trabalhar em equipa na reflex\ao p]ublica sobre as quest\oes que referes, que me s\ao familiares, mas que tu, ao coloc]a/las a partir de outro percurso pessoal, e outra idade, ajudas a esclarecer e ampliar.

      Bem hajas,

      Henrique.

  4. Henrique

    Venho aqui ao blogue, de vez em quando, ver se a discussão se anima. Mas não, não há novidades, nem curtas nem longas. Será que é um caso de “unknown knowns”, de que nem vale a pena falar, ou mais uma prova de que “absence of evidence” não é indício de erro? Costuma dizer-se que quem cala consente, como quem se abstém, mas ainda não se contam essas vozes a favor do que não foi expresso!

    Já não é preciso provar nada; desde que ninguém se oponha audívelmente qualquer coisa é tácitamente aprovada, políticamente correcta, aceitável, ‘in’, virtuosa!

    O contrário é verdadeiro, isto é, se algo nos incomoda e não temos argumentos fáceis a nosso favor, o melhor é deixar morrer o assunto. Rápidamente o episódio é esquecido ou é colocado naquela espécie de subconsciente comum das coisas a evitar delicadamente.

    Henrique.

  5. Henrique

    Venho aqui ao blogue, de vez em quando, ver se a discussão se anima. Mas não, não há novidades, nem curtas nem longas. Será que é um caso de “unknown knowns”, de que nem vale a pena falar, ou mais uma prova de que “absence of evidence” não é indício de erro? Costuma dizer-se que quem cala consente, como quem se abstém, mas ainda não se contam essas vozes a favor do que não foi expresso!

    Já não é preciso provar nada; desde que ninguém se oponha audívelmente qualquer coisa é tácitamente aprovada, políticamente correcta, aceitável, ‘in’, virtuosa!

    O contrário é verdadeiro, isto é, se algo nos incomoda e não temos argumentos fáceis a nosso favor, o melhor é deixar morrer o assunto. Rápidamente o episódio é esquecido ou é colocado naquela espécie de subconsciente comum das coisas a evitar delicadamente.

    Henrique.e ver se a discussão anima. Mas não, o silêncio mantém-se

  6. Marcos

    Olá Henrique

    O teu texto merece uma resposta ponderada, que poderia demorar bastante tempo a surgir, caso eu esperasse tê-la completa para te responder. Opto então por te responder aos “bochechos”.
    Em primeiro lugar saúdo a coragem que tiveste em escrever as tuas impressões sobre o tempo que passaste na Adeia das Amoreiras. Não é fácil partihar com as outras pessoas aquilo que pensamos, quando esses pensamentos vão contra aquilo que é a opinião prevalecente.
    Em segundo lugar, espero que quem tem dinamizado actividades
    no Centro de Convergência tenha jogo de cintura suficiente para receber as tuas críticas, detendo-se no conteúdo do que dizes sem prestar grande atenção à forma, dado que esta pode parecer virulenta a páginas tantas. Mas como isso é relativo, vamos antes ao conteúdo das afirmações que fazes. (continua…)

    • Henrique Merino

      Viva Marcos!

      Continuo a ter dificuldades em postar no WP. Agora não se fazem as quebras de linha no interior da janela de resposta e metade do que se escreve fica escondido! Escrevo à parte e depois faço “paste”.

      Oh pá, virulência…! Dá vontade, não poucas vezes, sem dúvida. E não só a mim, que há outras pessoas que têm engolido sapos. Mas isso não adianta (e guerra biológica está fora de questão de qualquer modo).

      Chamemos-lhe raiva, ou agressividade. São termos bem conhecidos, um mais emocional, outro mais científico. São emoções humanas naturais e essenciais à sobrevivência da espécie e dos indivíduos e, se as modernas formulações como a inteligência emocional e social convidam a tratar os conflitos de modo mais racional e pacífico, é preciso não escamotear voluntáriamente a raiva e a discórdia. Tentar fazê-lo seria alguma coisa do tipo wishfull thinking aplicado ao campo das humanidades . A discórdia, o pensamento crítico, a liberdade e a criatividade (até a loucura algumas vezes), são os elementos que tornam as nossas vidas motivadoras e produtivas, e a História apaixonante, apesar de aquilo que é bom ter muitas vezes também sido acompanhado por episódios lamentáveis. Se fôssemos um pouco mais capazes de aprender mais depressa e serenamente… E sem esquecer os afectos, porque a razão também não resolve tudo.(Afinal isto são problemas criados pelas nossas teorizações do Mundo e a solução seria extremamente simples).

      Mas voltando ao CC. Eu não quero atingir pessoas; só quero que pensem e sejam mais humildes para poderem reflectir melhor. E que tenham a coragem de o fazer. Que não rejeitem informação por ser incómoda.

      Comecei por assuntos verificáveis físicamente e outros recentes, de que todos se lembram. Mas tenho muito mais a dizer. Como não poderei escrever um tratado usarei textos disponíveis na internet, de que darei links ou que traduzirei.

      Todavia é uma tarefa ciclópica, se for possível levá-la a cabo. Tentarei apenas dar contributos para despertar mentes mais inquisitivas que por aí ainda haja, capazes de refazer a vinculação geracional e cultural. Já reparaste que, de Julho até agora não houve nenhuns posts na secção de opiniões deste blogue? No próprio site do GAIA, nas notícias curtas, há algumas centenas de pessoas que as lêem (presumívelmente), mas os comentários são pouquíssimos? Já para não falar na incapacidade de ler noutras línguas… Tenho a impressão de que muita gente apenas usa a web para saber o que está ‘on’ e se manter a par do ‘políticamente correcto’.

      Talvez na Primavera se possam organizar discussões de viva voz?

      Tornarei ao assunto.

      Henrique.

    • Marcos

      (continuação de 09/12/2013, às 12:39)
      Vou começar por aquilo a que chamas a “Casa Verde e alguns dos rituais”.

      As alicações tecnológicas alternativas serão as habituais para quem
      não está habituado a estas lides. Para muita gente que visita a casa
      há ali de facto uma pedrada no charco. Discordo igualmente de que
      tenham apenas valor identitário, tendo de facto uma função. Se não,
      vejamos:

      Casa de banho seca: É como descreves, incluíndo a questão da urina e
      do bidé. Que até terá uma solução simples, porque será que não é
      aplicada? Contudo, para fundamentar a minha afirmação de que serve para
      algo, gostava de salientar que todas as fezes de quem habita e de quem
      de alguma forma usa a retrete seca não vão parar à ribeira da Aldeia
      mas são isso sim compostadas no quintal da casa, podendo ser usadas
      mais tarde para enriquecer a terra. Assim evita-se contaminar a
      ribeira e gastar água da rede (potável) para limpar fezes. Achas que
      isto é apenas identitário?

      Por que razão as pessoas moradoras mais antigas na Aldeia não adoptam
      esta “tecnologia”? Por estar demasiado colada a sistemas de há 50
      ou 60 anos, conotados com época de miséria? Por falha de comunicação
      nossa? Por não haver preocupação com a/conhecimento da contaminação
      da ribeira? Por dar mais trabalho? Outras? Dando de barato que de
      facto ninguém optou por este sistema, algo até ao momento não confirmado
      mas provável, resta inquirir a população nesse sentido.

      O duche aquecido por fermentação: Mais uma vez, muito do que dizes faz
      sentido. É necessário espaço para implementar esta solução, pois foram
      usados pelo menos 5 metros cúbicos de estilha (pedacinhos de madeira).
      A experiência foi interessante, sendo que concordo com a pouca utilização
      dada ao duche. Por pouca não quero obviamente dizer nula. Eu pessoalmente
      usei este duche bastantes vezes, embora reconheça que nos dias mais
      frios de Inverno custava um pouco ir ao quintal despir-me para tomar
      duche e por isso algumas vezes lá foi o duche tomado no interior da casa
      com a bilha de gás refinado ali em Sines. Quanto a outras pessoas, foram
      algumas as vezes que notei que usavam o duche de fermentação. Se foram
      tantas as vezes quantas as possíveis, isso depende da avaliação subjectiva
      de cada pessoa e seria entrar numa onda que pode ser vista como persecutória,
      tipo, “Então não tomaste banho no quintal porquê?”

      Bastante interessante, como nota lateral, a questão da falta de terra
      e a distribuição dos baldios, algo que eu desconhecia mas que já me
      perguntava, por que razão não há baldios no Alentejo. Em relação
      à adopção desta tecnologia pelo resto da população, para além da
      questão do espaço necesário e nem sempre disponível para implementar esta
      solução, surgem as outras perguntas. Estão as pessoas a par desta
      solução? Fizeram a avaliação dos prós e contras, incluíndo em termos
      económicos? Etc.
      (continua…)

      • Henrique Merino

        Marcos, não podemos fazer ping-pong de argumentos sobre detalhes sem termos presente a imagem geral psico-sociológica, histórica, política, cultural, demográfica, enfim completa; é uma análise cultural latus sensu que eu proponho porque a alternativa é algo do tipo das infindáveis reuniões de 2ª feira. O pesssoal chumbou os WC secos porque os dejetos permanecem mais tempo presentes (mesmo que tapados) e é preciso processá-los, mesmo que só seja preciso carregar baldes de vez em quando. (Há uma conferência muito engraçada do Slavoj Zizek em Authors @ Google, vagamente relacionada; podia mandar-te-a mas iria infringir direitos da Google).

        Já toda a gente se habituou à mágica do fluxómetro. E isso está ligado ao horror por dejetos que cada um de nós gravou na fase anal da estruturação da personalidade e do estabelecimento do relacionamento com o meio exterior, agora de tal modo longínquo e ‘enterrado’ no sub-consciemte que se torna muito difícil recordá-lo ou geri-lo. Está tão íntimamente associado à noção de higiene que relacionamos ao novo modo de vida sofisticado que se generalizou depois do 25 de Abril que é bem possível que, de alguma forma, muitos o associem à libertação dos tempos da miséria. Por outro lado, os ricos e remediados há muito que dispunham de instalações sanitárias que faziam os pobres sentirem-se diminuidos. Pode ser que este tipo de considerações venha em teu favor no que dizes.

        Talvez o carácter nefasto da ‘ETAR’ e a possibilidade de cada um adoptar uma atitude ambientalmente responsável fossem uma via mais fácil e eficiente para sustentar a introdução de comportamentos diferentes, mas como pode fazer-se isso com mentores que têm comportamento abertamente ‘licencioso’, indisciplinado, que comsomem droga, que fazem como frei Tomé, acabados de aterrar numa aldeia tradicional para mostrar o que se deve fazer? (Propositadamente uso palavras que podem ter feito e fazem ainda parte da expressão da reacção popular, aquela que algumas pessoas do CC me confessaram não perceber). A operação inicial, que já designei como de ‘charme’, com apoio das Autarquias em 2005, aliada à confusão de valores que ia nesse tempo nas cabeças das pessoas, bombardeadas com apelos à ‘modernidade’ e à ‘inovação’, indefinidos, (mas que agora talvez já se possam pacíficamente entender como a última fase do condicionamento mental levada a cabo pelos media, pelos bancos e pelos partidos na intenção de estabelecer a ‘Economia de Mercado Livre’), poderá explicar como foi fácil e sem grandes atritos estabelecer o CC. Quem sabe se não seria uma nova fonte de créditos e vantagensdo tipo do FSE de 20 anos antes? Também foi a época do encorajamento ao sobre-endividamento.

        Para alguém como nós, habituados a apartamentos, a usar automóveis, a seguir as estreias de Holliwood, instruídos, a estratégia do CC pode parecer lógica e reforçada por um argumento de autoridade; mas nós fugimos da grande cidade, sem a mínima noção da história recente de regiões como esta. Somos representantes daqueles que os ludibriaram.

        Lembro-me de um casal de arquitectos colocados num GAT (Gabinete de Apoio técnico), nos anos 80, que se debatia tentando encontrar métodos de construção adequados ao clima alentejano. Encontraram-nas, mas sempre a preços proibitivos: o mercado de materiais e a valorização das construções terminadas obrigava a usar materiais correntes, os únicos disponíveis a preços razoáveis. Os problemas causados pelos extremos térmicos tinham de se resolver recorrendo a aparelhos, que, esses sim, tinham oferta abundante. Nesta altura o Governo (AD), mesmo que quisesse fazê-lo, já não dispunha de meios suficientes para influenciar os preços e regular o mercado interno, melhorar o conforto das pessoas e acautelar o consumo energético excessivo. E foi o nosso comportamento urbano que influenciou a procura e, consequentemente, os preços.

        Na AdA a primeira casa que me foi proposta era construida em tijolo e tinha uma simples placa como telhado. Os proprietários (que não fazem uso dela) terão concerteza grande dificuldade em recuperar o investimento e penso que têm toda a legitimidade em se sentirem ludibriados.

        Noutra ocasião tive oportunidade de falar com um homem que nasceu e viveu a sua infância na Serra, a Sul de Ourique. Contou-me que nessa altura não havia eucaliptos mas que havia pequenas hortas muradas com taipa e casas familiares modestas. Havia poços ou nascentes que corriam todo o ano, assegurando a vida das hortas, dos animais e das pessoas. Poderiam ter continuado a viver assim geração após geração. Mas começou o negócio da pasta de papel, as terras valorizaram e acabaram por vender o que lá tinham, migrando para o Concelho de Ourique. Compraram uma casa numa aldeia, a porta a dar para a rua pública, alguns animais e uma terra afastada. Acabaram por ter electricidade, àgua corrente e esgotos. Sujeitos às agruras da crise, parece-me que se sentem dignos cidadãos de uma democracia ocidental. A terra dos seus avós já não a conseguem localizar mas sabem que todos os pontos de àgua que havia naquela àrea secaram.

        Não faz sentido, nesta altura, atribuir culpas a este ou àquele. Só faz sentido perceber o que aconteceu e continua a acontecer, tornar-mo-nos, cada um, consciente do papel que teve e daquele que progressivamente opte por ter. Esquecer carros, bancos, créditos; sair do sistema o mais completamente possível, em conjunto com outros que sigam o mesmo percurso. Conservar o acesso a informação alternativa via internet (há quem discorde disto!). Cultivar o pensamento crítico, educar as crianças sem contos de fadas e ter esperança nelas e para elas.

        Henrique.

      • Gustavo

        Saudacoes,
        acabo de percorrer a discussao entre o Henrique e o Marcos e me espanta um pouco, o fato de serem apenas os dois a participar. Ha criticas fundamentais expressas aqui, que sao motivadas pelo caso do centro de convergencia, mas que reflectem um fenomeno de abrangencia muito maior.
        Me parece que esta em moda criticar o “sistema” em toda parte, mas os metodos sempre como reproducao do objeto criticado. Nao e facil colocar anos de formatacao (conhecidos pela alcunha de educacao) de lado e pensar alternativas. No entanto; ha a insatisfacao e os desertos a se expandir.
        Em todo caso eu nao me sinto a altura

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