Testemunho de um visitante ao Centro de Convergência

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O texto seguinte foi escrito por alguém que nos visitou entre os meses de Maio e Setembro de 2013. Essa pessoa pediu que o seu texto fosse publicado na página principal do blog, pelo que aqui segue. Para qualquer comentário, informação adicional ou contraditório, estão como sempre disponíveis as caixas de comentários.

Introdução:

 Escrevo este texto em resposta ao convite feito no blogue do “Centro de Convergência da Aldeia das Amoreiras” (CC) para que se expressem opiniões genéricas sobre a sua actividade. O objectivo destas contribuições suponho que seja animar a reflexão e mobilizar pessoas ideologicamente próximas mas eventualmente dispersas. Paralelamente decorre ou já decorreu uma “sistematização da actividade do CC entre 2005 e 2013”, creio que feita internamente e ainda algo semelhante a uma auditoria externa feita no quadro de um projecto universitário de investigação. As fronteiras entre estas 3 iniciativas e os seus objectos específicos não são muito claras e não têm sido divulgados resultados, o que talvez explique que não tenham sido ainda manifestadas opiniões na página criada para o efeito em Julho de 2013.

 

Estive na Aldeia das Amoreiras (AdA) de Maio a Setembro de 2013 e há bastante tempo que tenho a intenção de expôr a minha opinião pessoal. Recolhi impressões no local durante aquele tempo e também trazia já experiências semelhantes que posso considerar em conjunto com esta, relativas a iniciativas com que tive contacto e a outras que eu próprio tentei lançar. Outras iniciativas tem havido noutros locais que se deparam com obstáculos ou foram mal sucedidas e de que tem havido pouca [informação].

Julgo que pessoas que procuram reagir ou adaptar-se de alguma forma à marcha da degradação civilizacional e ambiental que decorre desde o fim dos anos dourados do pós-guerra (50s e 60s), a que escolho chamar crise neo-Liberal (CNL), em muitos casos solitárias mas também em grupos, têm interesse em registar discussões como esta, o que poderá ser útil com vista a que se obtenham melhores resultados em iniciativas futuras. A CNL, que teve efeitos óbvios no domínio ambiental e económico-financeiro mas abrangeu também a Educação, a Cultura, o entretenimento e o modo de vida em geral, é muitas vezes descrita de modo parcelar, tomando isoladamente aspectos como o consumismo ou a degradação dos conteúdos dos media. Tem-se instalado rapidamente desde o inicio dos anos 70 e reforçou-se com o aparecimento da internet em 1982 e a Globalização, produzindo já diferenciações demográficas e geracionaias e estando na origem de difíceis problemas psico-sociais e de assertividade entre grupos etários.

Afirmo desde já que tenho grandes resistências a teorias de conspirações, abordagens místicas ou que não sejam solidamente fundamentadas. Tenho tido a preocupação de conhecer o mais possível dos aspectos de Ciência Politica, Históricos e de Economia & Finanças envolvidos (tanto quanto posso, pois que não fazem parte da minha área de formação fundamental), bem como manter-me informado das evoluções nos países mais importantes, pois estou certo de que esta CNL só pode ter soluções positivas que envolvam um número elevado de países simultâneamente – noto que, recentemente, outras pessoas, conhecidas mas que não falavam disto, começam a exprimir abordagens semelhantes, coisa que noutros países já acontece há bastante tempo. Nesta fase, em Portugal, ainda só são possíveis iniciativas de pequena escala, onde se deve sobretudo difundir informação o mais isenta e o mais completa possível. Até agora os assuntos que me têm preocupado são deliberadamente evitados pela quase totalidade dos jovens e menos jovens que tenho encontrado, o que causa uma grande parte da dificuldade de comunicação que tenho sentido com eles, por um lado, e os impede de ter uma ideia mais abrangente e realista dos problemas que enfrentamos, resultando em esforços ineficazes e numa grande susceptibilidade a diversas alienações. O afastamento que se tem verificado das pessoas em relação à informação e às questões públicas é sobretudo causado pela permanente frustração a que se sujeitam no modo de vida mainstream.

Gostaria também de transmitir a expectativa prévia que eu tinha relativamente ao CC; já conhecia a sua existência desde 2007, pelo contacto que tive com o GAIA durante a encontro Ecotopia 2007 em Aljezur, e por visitas esporádicas que depois disso fui fazendo aos sites e blogues destes organismos. Tanto uma como outra destas fontes de informação criavam uma imagem muito boa e, até certo ponto, de intensa actividade. Parecia realmente um projecto exemplar e enraizado. O facto de só em 2013 me ter deslocado lá tem a ver com o meu desconforto com o facto de as áreas política e económica não estarem a ser consideradas; ex.: a crise de 2008 e subsequente, por exemplo, não teve qualquer consequência no conteúdo do blogue do CC! Mantive sentimentos mistos durante vários anos, receando que este CC se tornasse em mais um motivo de frustração como aqueles a que eu já me tinha visto sujeitado e fui-o guardando para quando não me sobrasse energia para continuar os esforços que vinha fazendo desde 1996. Um bote de salvação que, ao mesmo tempo, eu temia estivesse arrombado. Não sou o que se diz velho nestes dias, mas tenho tido uma vida desgastante, a que se juntam os últimos 23 anos de solidão, e tenho vindo progressivamente a sentir a minha saúde piorar.

O parágrafo anterior é pessoal e intimo, mas incluo-o porque penso que os pormenores deste tipo podem ser necessários para se obter uma boa assertividade e clareza na comunicação por escrito. Eventualmente não conseguirei evitar que as pessoas envolvidas sejam identificáveis para quem está ou esteve mais próximo dos acontecimentos; tentarei evitar fazê-lo gratuitamente mas é-me impossível transportar muitos dos pormenores importantes para um plano teórico impessoal ou ficcionado e, sobretudo, sou da opinião firme de que é exigível às pessoas que afirmam estar empenhadas em reagir ao sistema educativo, económico e social mainstream actual, que prescindam progressivamente de muitos dos sentimentos de orgulho, privacidade e tentação de poder sobre os outros que cultivam culturalmente, ou ficaremos imóveis no terreno do ludíbrio e das aparências falsas; qualquer transformação real seria sempre longínqua e apenas vagamente sonhada.

Passo em seguida a alguns relatos de experiências que vivi e observei na AdA, a propósito das quais exporei a minha opinião e farei a minha crítica.

A “Casa Verde” e alguns dos rituais:

A “casa verde” é uma casa tradicional alentejana recentemente reparada e na qual foram feitas algumas instalações de tipo ‘alternativo’ ou com preocupação ambiental. Serve de pensão para estadias curtas de visitantes; não é permitido fumar (advertência que não costuma ser feita previamente) e os hóspedes não podem usar a cozinha. Como abrigo para dormir e para não fumadores é confortável se estiver pouco frio, mas cara.

As aplicações tecnológicas ‘alternativas’ são as habituais e, como se vai ver, têm apenas valor de rituais identitários do grupo, sem qualquer expressão funcional.

“Casa de banho seca”: é o sanitário antigo da casa. Tem dimensões normais e um janelo, notando-se apenas a falta da sanita, que foi substituída por um balde de uns 20 ou 30 litros numa caixa de madeira. Como não se faz a separação da urina é norma usar-se o antigo bidé para urinar (!), se se quiserem evitar maus cheiros. Isto não deve ser cómodo para as mulheres e aos homens coloca o problema adicional dos salpicos, para não falar nos mais velhos, já com as próstatas dilatadas! No entanto o resultado é considerado exemplo de aplicação de técnicas amigas do ambiente e não há qualquer intenção de fazer a separação das urinas, o que seria bastante fácil.

Esta instalação, foi feita como demonstração e suponho que era esperado fosse adoptada pelos moradores da aldeia, de modo a reduzir as emissões para a fossa colectiva e daí para a ribeira. Escusado será dizer que os resultados foram nulos; apenas acontece avistarem-se, de vez em quando, os hóspedes masculinos aliviarem-se do modo mais tradicional, anterior ao uso de WC, nalguns recantos em redor da “casa verde”.

O duche aquecido por fermentação: a aplicação da recuperação do calor resultante da fermentação de uma pilha vegetal parece ter superado as expectativas, tendo a mesma pilha funcionado do Outono de 2012 até Março de 2013. Nada a dizer da técnica, apenas que também não foi adoptada e desta vez nem sequer pelos próprios “convergentes#”. A população local, na generalidade dos casos, não teria aderido, parece-me, por não dispôr de espaço suficiente para instalar a pilha (desde a Revolução Liberal de 1820, que resultou na distribuição dos baldios pelos moradores, inviáveis e posteriormente agregados aos latifúndios privados por venda, a Arquitectura Urbana no Alentejo passou a caracterizar-se por espaços ao ar livre maioritariamente exíguos). A população “convergente#”, salvo alguns casos muito raros, preferiu usar a banheira da casa de banho interior, o esquentador e, claro, gás de botija, mesmo quando a temperatura do ar subiu, a partir de Maio! Em Agosto tínhamos temperaturas diárias máximas de 40º C. Comodismo, pudor no ar livre, apesar de o duche ser invisível de fora do muro do quintal e da casa? O facto é que estes “convergentes#” desprezam a contribuição que podem dar alterando os seus hábitos pessoais e mostram o baixo grau em que se sentem pessoalmente envolvidos na catástrofe ambiental.

O “fogão de sala”: Tratava-se da antiga lareira alentejana tradicional da casa. Elemento arquitectónico característico da região e adaptado, por séculos de experimentação, ao clima e às actividades domésticas. Em lugar de tentar adaptar os seus hábitos urbanos, o que derivaria da declaração de intenções divulgada no inicio do projecto, os “convergentes#” tentaram copiar e recriar localmente os meios que lhes permitissem manter o conforto citadino de que se mantêm dependentes. Obviamente este exemplo também não foi adoptado na aldeia. Na própria “casa verde” suponho que a lareira continua a ser utilizável mas com menos eficiência porque o fogo tem de ser feito mais afastado da parede do fundo da lareira e haverá menor tiragem, com libertação de fumos.

O “aquecimento central”: Baseia-se no conceito dos rocket stoves. Esta designação inglesa mostra como a cultura alternativa portuguesa é sistematicamente importada de países de língua anglo- saxónica, usando a internet, e se ignoram as técnicas tradicionais locais baseadas nos mesmos princípios da Física. Os alternativos portugueses dispensam-se de ler Leite de Vasconcelos, Aquilino, Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca e tantíssimos outros, nem fazem observação directa em etnografia; não estão dispostos a adaptar-se nem temporariamente ao ‘desconforto’ rural que neste Pais ainda se vive. Naqueles Autores encontrariam relatos do quotidiano, desenhos de objectos e construções e vocabulário que dispensaria esses anglicanismos e nos faria sentir mais a nossa identidade e a ligação com o território. Além disso, a existência de páginas portuguesas na web sobre estes assuntos permitiria a divulgação mais atraente e eficaz. Tornarei a falar disto a propósito da “permacultura” (*).

Voltando à vaca fria: o modelo de aquecimento central escolhido baseia-se numa variante de rocket stove em que a alimentação de lenha se faz verticalmente. Eu já tinha ouvido falar de tentativas de a concretizar mas sempre sem entusiasmo. Para que funcione sem libertação de fumos é necessário que se estabeleça uma sucção em direcção à chaminé, superior à tendência ascencional dos fumos na câmara de combustão; pois, naquela instalação as resistências ao fluxo até à chaminé são imensas e será impossível evitar a libertação de fumos no interior de casa sem um exaustor mecânico, o que desvirtuará completamente o conjunto. A solução é usar ceroulas e camisolas artesanais de lã (evitar a fibra acrílica) e só usar os quartos para dormir; durante o dia usar a cozinha e a sala com lareira. Para o resto, se for preciso, salamandras ou braseiras. Muitos pobres havia que só podiam usar uma braseira, que se acendia na rua!

E, claro, habituarem-se a suportar o frio, uma necessidade vulgar no mundo rural. Note-se que não defendo a recusa de utilizar meios modernos para aquecimento ou outros fins, como alguns ambientalistas radicais fazem. Deve fazer-se-lo, mas de modo muito ponderado. O que aqui critico é que a ideia corajosa e ambiciosa de promover uma comunidade ambientalmente mais sensata, inclusiva dos próprios habitantes numa aldeia rural já estabelecida, aplicando soluções novas e alternativas ao pronto-a-usar disponível no mercado, que era algo que se depreendia da declaração inicial de intenções anunciada no blogue por altura da primeira acção de charme em 2005, falhou redondamente. As razões que sempre estiveram presentes e se mantêm são a falta de experiência dos “convergentes#” na vida de comunidades rurais pobres, que está ligada a uma falta de empenho pessoal patente pois no tempo que antecedeu 2005 poderiam ter experimentado essa vida em aldeias portuguesas ou de outros países e também a arrogância ou falta de humildade e integridade intelectual para reconhecer e aprender, após os primeiros fracassos, com os próprios habitantes, com pessoas mais experientes e mais velhas ou até literariamente. Houve (e há) um erro de atitude por parte dos “convergentes#”, que vieram “mostrar como se faz” ex-catedra a gente que o sabe desde o Antigo Regime, tendo eles intenções porventura muito honestas mas infantilmente afastadas da realidade. Repetiu-se o erro das “campanhas de alfabetização” de 74 e 75 e, como diz o adágio: quem sabe faz; quem não sabe ensina!

No inicio do projecto deu-se grande importância a acções publicitárias multimédia, como é de norma hoje em dia, divulgadas na internet e até em livro, que deram inicio ao embuste; essa técnica continua a usar-se cuidadosamente para manter a visibilidade, o brilho e o protagonismo, tentando não perder os apoios da Câmara Municipal de Odemira e da Comissão Europeia.

Tinha receio de que este texto iria ser muito longo para realizar o que me propunha mas verifico que o que ficou escrito já retrata o essencial da minha opinião sobre o que tem sido o CC e já se pode depreender genericamente o que foi o seu papel de 2005 a 2013.

Não posso todavia esquecer um ponto. A iniciativa dos “convergentes#” não é consequência de um esforço voluntário lúcido, capaz de vencer as resistências pessoais: a generalidade dispõe de uma retaguarda nalguma cidade que lhes garante a compensação afectiva e económica suficientemente confortável para que possam evitar desligar-se do sistema mainstream e ainda de transporte próprio. Durante as estadias semanais na AdA têm comportamentos sociais que suscitam dos habitantes o comentário de que “o que elas querem é baganha” (cf. léxico tradicional e popular alentejano).

Pela minha parte, e arriscando parecer estar a “self-pittying myself”, trouxe da AdA no fim de Setembro uma fibrilhação auricular e hipertensão que fui obrigado a vir tratar em Santiago do Cacém. Estou certo de que a fibrilhação se desencadeou primordialmente por ouvir a declaração de que me tinha ido “meter onde não era chamado”. Depois de 23 anos dedicado seriamente a esta área de activismo, quase mais do que alguns destes brilhantes jovens têm de vida, ouvir isto de um suposto activista ideologicamente próximo, teve efeitos demolidores na minha saúde. Já tinha ouvido relatos de outras pessoas especialmente empenhadas e jovens que foram obrigadas a afastar-se da AdA psicologicamente destroçadas, mas é sempre muito difícil saber pormenores destes casos; simplesmente não se fala deles. Também os voluntários do Serviço de Voluntariado Europeu (SVE) se afastam, por muito pacientes que sejam. Mas na Primavera, se a saúde mo permitir, regressarei à zona.

A propósito cito uma passagem do blogue que data provavelmente de Julho de 2012, precisamente da página “opiniões”. Cito: ”Desde a sua fundação que o Centro de Convergência está aberto a todas as pessoas que desejem convergir para pôr as suas ideias em prática. Daqui o nome Centro de Convergência. Se tens boas ideias vem daí pô-las em prática! Nós naturalmente que temos imensas mas não as conseguimos pôr todas em prática por isso antes de sugerir para nós fazermos pergunta-te se o queres tu fazer… Nós partilhamos os nossos recursos sempre que possível.” A atitude do camarada que fez aquela afirmação não foi isolada na medida em que, tentando discutir o caso com outros elementos, foi considerado que o CC e o seu papel não estavam em causa. O método de organização horizontal destina-se, na sua origem, a evitar a represssão policial em acções até muito recentes, como Occupy Wall Street (OWS) ou o 15M, mas foi confundido com uma variante de filosofia democrática; de qualquer modo só tem resultados se os activistas tiverem formação e capacidade autónoma para realizar as tarefas decididas por consenso, o que, decididamente está longe de acontecer com os convergentes#. De novo se revela também a falta de consciência do principal papel do grupo: ter uma atitude pedagógica para com os elementos atraídos pelo projecto mas ainda muito afastados de ter uma consciência adequada dos objectivos e dos métodos.

Falta-me ainda esclarecer a expressão “convergentes#”; as decisões do CC em principio são tomadas por consenso numa reunião semanal onde tem assento quem queira. A determinada altura a elite, estabelecida não se sabe como, necessitou de uma designação especial para aqueles que, como é sabido desde a histórica revolta dos porcos, são mais iguais que os outros. Optaram por “convergentes”. Ora, como convergentes há muitos e eu também sou um deles, necessito de usar uma variante para exprimir esta nuance semântica e lembrei-me dos nomes das versões sucessivas da linguagem de programação C, que foram C, C+, C++ e C# (C sharp ou C sustenido).

(*) Noutro texto a publicar mais tarde.

Henrique Merino, calcinhas01@gmail.com

Brescos, 2-12-2013

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